terça-feira, 5 de junho de 2012

Livro Educação e Capitalismo: Para uma crítica a Paulo Freire, de minha autoria, publicado pela Rizoma Editorial, com prefácio de Edmilson Marques. O objetivo desta obra é contribuir com a luta cultural.




Aqui está uma obra, e ao mesmo tempo, um ponta pé inicial para um trabalho ainda por fazer na área da educação, ou seja, a crítica desapiedada da própria educação e de todas as concepções que compactuam com esta área do conhecimento. Aqui está uma contribuição fundamental para a crítica de Paulo Freire.

Obras iguais a estas são alvo de muitas críticas, o que não será uma surpresa, pois num mundo onde as ideias dominantes são as ideias da classe dominante, deixa de ser surpreendente que aqueles que compartilham de valores burgueses busquem desqualificar ideias que coloquem em xeque a própria burguesia. Mas ao lado destes estão aqueles que almejam contribuir pela substituição da sociedade atual por outra que seja estabelecida pelo autogoverno dos produtores. Uma sociedade onde “a educação libertá-los-á, por conseguinte, desse caráter unilateral que a divisão do trabalho actual imprime a cada indivíduo”. 


Edmilson Marques


Em Breve Disponível no site:www.rizomaeditorial.com

segunda-feira, 16 de abril de 2012


      II SIMPÓSIO NACIONAL MARXISMO LIBERTÁRIO

Para fazer inscrição, acesse o site do evento através do seguinte endereço: http://simposionpm.teoros.net/




IV SEMINÁRIO DO NÚCLEO DE PESQUISA MARXISTA


Texto: A mulher na sociedade capitalista


A MULHER NA SOCIEDADE CAPITALISTA

Daiany Fernanda Queiroz Barreto
Eliane Maria de Jesus

O presente texto visa analisar a situação da mulher na sociedade capitalista, buscando entender ao mesmo tempo seu papel nesta sociedade e como as determinações do capitalismo influenciam no seu comportamento. Levando em conta que o pensar a questão da mulher tem sido preocupação constante na contemporaneidade, esse texto busca contribuir para se pensar as transformações vivenciadas pelas mulheres de diferentes classes sociais no decorrer dos anos.
Considerando que o objetivo proposto parte da discussão das relações sociais de sexo, tendo como foco a mulher, iniciaremos fazendo uma crítica ao que muitos denominam de relações de “gênero”. Esclarecendo que tal abordagem e que o presente termo se constitui na verdade uma ideologia[1] do gênero, a qual segundo Viana (2006, p.42) “O que denominamos ideologia do gênero é a concepção que coloca o construto gênero com o termo fundamental da análise da questão da mulher e até mesmo da sociedade como um todo.”
O uso do termo “gênero” trata-se na verdade de uma espécie de crença que nada revela, ao contrário disso oculta a realidade das diferenças e razões da existência destas entre os sexos. Para uma análise que busca justamente partir de uma perspectiva que nos permita entender as relações sociais, desmistificando e colocando abaixo as ideologias existentes, com o intuito de revelar a realidade sobre essas relações, o presente construto[2] não constituirá a presente discussão.
No decorrer dos anos a sociedade tem passado por diferentes transformações e estas influem diretamente na vida e comportamento dos indivíduos que se encontram nela inserido. Com o surgimento do capitalismo temos um modo de produção[3] no qual existem duas classes fundamentais: burguesia e proletariado. Cuja base desse sistema é a exploração da classe proletária pela classe burguesa, com o intuito de extrair a mais-valia[4] o que é a base essencial do capitalismo.
Ambas as classes tanto a burguesa quanto a proletária possuem interesses opostos, onde os capitalistas buscam explorar a mão-de-obra da classe trabalhadora, enquanto esta resiste à dominação que lhe é imposta o que acaba por colocá-las em constantes conflitos que tem como resultado a luta de classes. Na qual em momentos em que as lutas adquirem sua intensidade desenvolve-se então no proletariado sua consciência de classes.
Na sociedade capitalista a mulher é impelida a adaptar-se a dinâmica desse modo de produção, onde é requerido dela uma participação ativa na vida econômica, ou seja, sua inserção no mercado de trabalho. De maneira que a nova situação requereu que as mulheres que antes se encontravam em seus lares desenvolvendo diferentes funções, agora fornecessem sua mão-de-obra para atender a dinâmica do capital.
As relações de produção, que durante tantos séculos mantiveram a mulher trancada em casa e submetida ao marido, que a sustentava, são as mesmas que, ao arrancar as correntes enferrujadas que a aprisionavam, impelem a mulher frágil e inadaptada à luta do cotidiano e a submetem à dependência econômica do capital. (KOLONTAI, 2005, p. 17).
            Nesse contexto a mulher se ver forçada a adaptar-se a uma nova condição, passando por transformações sociais, econômicas e principalmente psicológicas, precisando então a partir disso reavaliar sua situação de mulher e consequentemente seus valores, sendo estes herdados por meio da família que até então regeram seu comportamento, determinando assim suas ações nessa sociedade.
            Para Kolontai (2005, p.16) “A mulher moderna, como tipo, não poderia aparecer a não ser com o aumento quantitativo da força de trabalho feminino assalariado.” Assim o que antes era tido como normal, ou seja, a permanência das mulheres nos lares, agora o normal é sua participação no mercado, abandonando a condição de filhas, esposas, obedientes e submissas e adquirindo características de uma nova mulher.
            Segundo Marques (2006, p. 92) “A mulher se liberta de seus valores tradicionais e cai nas entranhas do capital.” Dessa forma, a personalidade da mulher moderna é marcada principalmente pelas transformações que essa nova dinâmica do sistema provoca nelas. Sendo que requer destas características de força e de alguém que saiba se posicionar assemelhando-se assim ao próprio homem cujas marcas são permanentes. Onde as exigências desse sistema transformam as mulheres, aguçando nessas características que compõem sua individualidade.
            As mulheres começam então a desenvolver sua autonomia no mercado, uma vez que conquista seu espaço e o salário que recebem facilitam sua liberdade dando a estas um sentimento de independência. Dessa forma elas começam a exigir direitos iguais aos dos homens, a lutar por salários mais justos, e por um lugar que agora ela considera ser seu por direito e merecimento.
A liberdade que as mulheres, e grande parte da sociedade, acreditam estar conquistando em beneficio próprio, através do mercado de trabalho [...] nada mais é do que a liberdade dos capitalistas em explorar a sua força de trabalho. Dessa forma, ao engajar-se num trabalho alienado a mulher se anula como pessoa, pois, na lógica do capital o ser humano perde suas características humanas e passa a ser visto como mercadoria, como coisa. (MARQUES, 2006, p. 82).
            Dessa forma percebemos que o lugar das mulheres nessa sociedade é determinado pelas classes sociais que elas ocupam, de forma que na sociedade capitalista onde ocorre uma exploração e opressão de classes, ocorre concomitante a opressão de sexo. Assim sendo, como observado por Marques o trabalho desenvolvido pela mulher nesta sociedade acaba por retirar suas características próprias de mulher, adquirindo assim uma condição de mercadoria a serviço do capitalismo.
            A condição da mulher como constituinte desse processo enquanto mercadoria a serviços dos capitalistas diz respeito justamente ao fato dela comercializar sua mão-de-obra, se integrando assim no mercado capitalista, onde sua força de trabalho coopera para o avanço do capital. A mulher torna-se assim alvo de exploração e vítima de uma opressão que aumenta consideravelmente.
            Segundo Viana (2006, p. 131) “A situação da mulher no processo de trabalho e nas relações de trabalho no capitalismo apontam para uma situação de exploração extremada acompanhada por outras formas de opressão.” O autor reconhece a condição da mulher enquanto objeto de exploração e opressão não somente na sua condição de trabalhadora como de outras maneiras, a exemplo a dominação vivida por estas.
            Paralelo a situação de exploração sofrida pela mulher por meio do mercado de trabalho, ocorre também à dominação masculina, na qual esta além de suas atividades realizadas no trabalho, também lhe é imputada a responsabilidade do lar. De maneira que atenda tanto as exigências do mercado de trabalho como as necessidades e as solicitações de sua família.
                                      No seio da família, a dominação masculina pode ser observada em praticamente todas as atitudes. Ainda que a mulher trabalhe fora de casa em troca de um salário, cabe-lhe realizar todas as tarefas domésticas. Como, de acordo com o modelo, os afazeres domésticos são considerados “coisas de mulher”, o homem raramente se dispõe a colaborar para tornar menos dura a vida de sua companheira. (SAFFIOTI, 1991, p. 50, grifo do autor).
O autor analisa assim em sua obra características próprias de um determinismo machista, onde predominantemente o homem tem uma atitude de recusa ou mesmo negação da condição dessa nova mulher. Evidenciando assim uma sociedade onde ainda predomina o machismo, no qual a mulher sofre preconceitos nas diferentes esferas sociais por sua situação de mulher.
Segundo Viana (2006, p. 33) “A coerção da mulher ao trabalho doméstico proporciona a criação de laços de dependência desta em relação ao homem.” As relações entre homens e mulheres são assim marcadas por uma hierarquia de poder, que impera impedindo assim a igualdade entre ambos. O que se torna evidente devido à ilusão e idéia de que o homem é superior a mulher, o que, por exemplo, justificaria os salários mais baixos pagos as mulheres, bem como a competição gerada entre ambos os sexos na esfera da produção.
Outra característica que constitui a mulher na sociedade capitalista é a forma como sua imagem é veiculada, onde ela é vista como objeto de consumo, bem como um objeto a ser consumido, escrava de padrões de belezas que são determinados e passam a reger sua vida. A mulher nessa perspectiva parece perder sua identidade, e a mesma passa a ser secundária diante da necessidade de ser aceita e estar dentro dos padrões estabelecidos pela sociedade atual.
Para Viana (2006, p. 35) “Numa sociedade onde existe opressão feminina, tudo que serve para conservá-la serve, ao mesmo tempo, para conservar esta opressão, e também a dominação de classe, que é o fundamento desta opressão.” O que é essencial observar nesta fala é que a opressão de sexo é conseqüência da dominação de classes, e essas formas de opressão, envolvem mulheres de determinada classe social. Existindo nesse processo uma classe que explora e outra que é vitima dessa exploração.
Como existem na sociedade classes sociais opostas e com características específicas é esperado que o papel desempenhado pelas mulheres e a dominação que estas sofrem sejam demarcadas pela classe que estas constituem. Assim enquanto com as mulheres da classe trabalhadora temos o processo no qual estas se vêem lançadas ao mercado de trabalho tanto por necessidades econômicas, quanto por necessidades psicológicas. Com a mulher burguesa:
No caso das mulheres das classes privilegiadas ocorreu um processo semelhante mais por razões diferentes. A classe capitalista e as “classes médias” também executaram uma divisão de funções na família, onde o homem tinha como função cuidar dos “negócios” e a mulher da casa. Neste caso, tal divisão de tarefas foi produzida pela tradição familiar que a classe capitalista herda das classes anteriores (principalmente, da nobreza). (PEIXOTO, 2007, p.106).
            É possível notar na citação de Angélica Peixoto a distinção entre a mulher da classe burguesa e a da classe proletária. Onde nesta última ocorre não só uma dominação de sexo como também diferentes formas de opressão entre as quais se encontram a exploração exercida pelos capitalistas, enquanto que na primeira é evidenciada a dominação de sexo, o que não exclui a possibilidade de existir opressão entre as mulheres dessa classe.
            Segundo Saffioti (1987, p. 64) “Às mulheres das classes privilegiadas é dado o direito de usufruir da riqueza que possuem, riqueza esta amealhada graças à exploração das classes trabalhadoras em geral [...]”, o fato é que o modo de viver das classes desfavorecidas que acaba sendo determinado pela classe no poder, em muito se distancia do modo de vida da classe dominante.
            A mulher que compõe a classe operária é assim vítima de uma opressão que perpetua e reafirma sua condição de explorada que é também a condição da classe a que ela pertence. Constitui assim o grupo que tem sua força de trabalho apropriado pelos burgueses e que são submetidos a um processo de exploração intensa. “O burguês vê na mulher um simples instrumento de produção.” (MARX; ENGELS, 1979, p. 48).
            É importante reafirmar que o presente texto não se fundamenta ou se posiciona a partir da perspectiva do “feminismo” que coloca o sexo como fundamental, não reconhecendo que a opressão de sexo se encontra ligada a opressão de classe, como defendido pelo movimento operário. Ao que negando a ideologia feminista adota-se aqui a perspectiva da classe operária para compreender de fato como ocorre a opressão da mulher nesta sociedade. Essas concepções apresentam como diferença básica a explicação de que a raiz da opressão se constitui na dominação de classe ou dominação cultural. (PEIXOTO, 2006, p. 109).
            A questão da mulher no capitalismo é uma questão não só dela como também da classe que ela compõe, partindo da classe explorada e das mulheres que a constituem. Não se trata de defender os interesses das mulheres como indivíduos isolados e sim juntamente com as reivindicações da sua classe. Para tanto, deve ser levado em conta às características dessa nova mulher, ou seja, o proletariado enquanto classe revolucionária que luta contra a dominação, e exploração devem negar todo preconceito e opressão contra a mulher.
             A personalidade da mulher contemporânea é diferente em inúmeros aspectos, as mudanças econômicas, sociais e psicológicas vividas por elas nesse processo influenciam também os relacionamentos amorosos. Ela começa a enxergar diferentes possibilidades a sua volta, e o amor que antes era a essência da sua existência, nesta nova mulher já não ocupa lugar de destaque, adquirindo novos traços.
Mas á medida que a mulher participa mais amplamente do movimento da vida social, que se torna uma peça ativa no mecanismo da vida econômica, seu horizonte se amplia. As paredes de sua casa que, para ela, substituíam o mundo, desabam, e se deixa penetrar inconscientemente por interesses que, antes, eram-lhe totalmente estranhos e incompreensíveis. (KOLLONTAI, 1982, p. 76).
            Surge então na sociedade capitalista a nova mulher, com fortes marcas, e presença, se afirmando constantemente, e negando a moral sexual determinada até então. Apesar de trazer consigo essas novas características e personalidade a mulher operária não está isenta de ser influenciada por valores dominantes. Portanto, pretende-se mostrar a importância das mulheres das classes dominadas, reconhecerem sua situação enquanto classe e se posicionarem na luta pela sua emancipação, não objetivando uma liberdade individual mais os interesses da classe operária
            A questão não é respeitar a mulher porque ela é mulher, e sim porque ela deve ser considerada igual ao homem (POSADAS, 1982, p. 127). A mulher enquanto parte da classe proletária deve ser aceita e respeitada como igual, ou seja, deve ser dado a ela na luta e na classe revolucionária que ela integra as mesmas oportunidades dadas ao homem, para que ela possa se sentir realmente como elemento essencial desse grupo.
            A história que constitui essa sociedade é escrita pelas classes fundamentais existentes no capitalismo: burguesia e proletariado. Em momentos de luta a classe operária desenvolve a consciência de classes, sendo o desenvolvimento da luta de classes que determinará os rumos dessa sociedade. Quando mulheres, homens, ou seja, todos aqueles que compõem as classes exploradas estiverem dispostos a engajarem nessa luta, contra todo o tipo de opressão e dominação poderá então ser pensada uma superação do capitalismo e a efetivação da autogestão social.

Referências Bibliográficas

KOLLONTAI, Alexandra. Marxismo e Revolução Sexual. São Paulo: Global Editora, 1982.

MARX; ENGELS; LENIN. Sobre a Mulher. São Paulo: Global Editora, 1979.

MAIA, Lucas. Desenvolvimento do Materialismo Histórico-Dialético.In: Viana, Nildo. A Consciência da História: Ensaios sobre o Materialismo Histórico-Dialético. Rio de Janeiro: Achiamé, 2007.

MARQUES, Edmilson. A Mulher na Sociedade Moderna. In: VIANA, Nildo (org.). A Questão da Mulher: opressão, trabalho, violência. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2006.

PEIXOTO, Maria Angélica. Movimento Operário e Lutas Femininas. In: VIANA, Nildo (org.). A Questão da Mulher: opressão, trabalho, violência. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2006

POSADAS. J.  A libertação da mulher, a luta de classes e a Revolução Socialista In: MACHEL et al. A libertação da mulher. 3. ed. São Paulo: Global Editora, 1982.

SAFFIOTI, Heleieth. I. B. O poder do macho. 5. ed. São Paulo: Moderna, 1987.

VIANA, Nildo. A Consciência da HistóriaEnsaios sobre o Materialismo Histórico-Dialético. 2. ed. Rio de Janeiro: Achiamé, 2007.
                                                        


           



[1] A ideologia pode ser definida resumidamente como falsa consciência sistemática. Ela é falsa consciência por estar ligada aos interesses da classe dominante, que não pode revelar a verdade, deve ocultá-la. (VIANA, 2010, p. 23).
[2] Um construto é um falso conceito, sendo que este é uma expressão correta da realidade enquanto que o aquele é uma expressão deformada dela. (VIANA, 1997 apud VIANA, 2010).
[3] “Um modo de produção é constituído pelo conjunto das forças produtivas e das relações de produção, as quais são regulamentadas por determinadas formas de regularização.” (MAIA, 2007 apud VIANA, 2007).
[4] “A mais-valia se origina de um excedente quantitativo de trabalho, da duração prolongada do mesmo processo de trabalho (...).” (MARX, 2003, p. 231).